Parque Nacional Patagônia: o lugar que um homem criou e você pode caminhar por ele
- Latitude 51
- há 5 dias
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Existe uma Patagônia que a maioria dos viajantes nunca conhece.
Não é a Patagônia do Torres del Paine, com suas filas de temporada e trilhas bem sinalizadas.
Não é a Patagônia dos pacotes de agência, com ônibus turísticos e paradas rápidas para foto.
É a Patagônia do Parque Nacional Patagônia, na Carretera Austral chilena. Um lugar que literalmente não existia até alguém decidir criá-lo. E a história de quem criou esse lugar é tão extraordinária quanto as paisagens que ele protegeu.
O homem que escolheu salvar a Patagônia
Em 1989, Doug Tompkins era um dos empresários mais bem-sucedidos dos Estados Unidos.
Havia cofundado a The North Face, uma das marcas de equipamentos outdoor mais reconhecidas do mundo, e a Esprit, gigante da moda. Tinha dinheiro, status e tudo que o mundo corporativo considera como sucesso.
Então vendeu tudo. Mais de 150 milhões de dólares. E foi para a Patagônia.
Não para visitar. Para ficar.
Nos 25 anos seguintes, Tompkins usou sua fortuna para comprar fazendas degradadas na Patagônia chilena e devolvê-las à natureza. Terras que haviam sido usadas para criação de ovelhas e estavam em processo de desertificação foram sendo recuperadas uma a uma. Florestas nativas replantadas. Animais como o guanaco, o puma e o cervo andino voltaram a circular livremente.
Em 2015, Tompkins morreu num acidente de caiaque no Lago General Carrera, as mesmas águas que os grupos de trekking cruzam de balsa na Carretera Austral. Tinha 72 anos e havia dedicado mais de duas décadas a essa missão.
Em 2018, sua viúva, Kristine McDivitt Tompkins, doou mais de 407 mil hectares ao governo chileno, na que foi descrita como a maior doação privada de terra da história para um país. Junto com as terras que o governo chileno acrescentou, nasceu oficialmente o Parque Nacional Patagônia.
Doug Tompkins está enterrado dentro do parque que criou, ao final de uma trilha de 4 km.
O que é o Parque Nacional Patagônia
O Parque Nacional Patagônia fica na região de Aysén, na Patagônia chilena, ao longo da Carretera Austral. Ocupa uma área de mais de 300 mil hectares e integra três setores principais: Jeinimeni, Tamango e Cochrane. É administrado pela CONAF, a Corporação Nacional Florestal do Chile.
O parque é considerado um dos projetos de restauração ecológica mais importantes do planeta. Em menos de 30 anos, áreas degradadas por décadas de pecuária intensiva foram transformadas em habitats naturais de alta biodiversidade.
A fauna é uma das mais ricas da Patagônia. Pumas, guanacos, huemules (o cervo andino em risco de extinção), condores, ñandus e flamingos convivem num ecossistema em processo ativo de recuperação.

O que você vai encontrar no parque
O Parque Nacional Patagônia oferece experiências que não existem em nenhum outro lugar da Patagônia chilena.
No setor Jeinimeni, a trilha até o Lago Jeinimeni atravessa uma paisagem de altiplano com lagos de cor esmeralda e formações rochosas incomuns. O Vale Lunar, no mesmo setor, guarda vestígios arqueológicos de povos pré-colombianos que habitaram a região por milhares de anos.
As formações rochosas esculpidas pelo vento e pela água ao longo de milênios criam uma paisagem que parece de outro planeta.
No setor Tamango, trilhas de nível moderado percorrem florestas nativas de lenga e ñire com vista para o Lago Cochrane. É um dos melhores lugares para observar o huemul, o cervo andino símbolo do Chile.
E em Cochrane, às margens do Rio Baker, o mais caudaloso do Chile, estão alguns dos momentos mais memoráveis de qualquer expedição pela Carretera Austral. O azul intenso do Baker vem do degelo dos campos de gelo da Patagônia, e a paisagem ao redor não tem comparação.

As Catedrais de Mármore
A poucas horas de Cochrane, no Lago General Carrera, ficam as Catedrais de Mármore. São formações geológicas esculpidas ao longo de 6 mil anos pela ação das ondas do lago sobre o calcário. O resultado é uma série de cavernas, pilares e arcos de mármore em tons de azul, cinza e branco, que só se acessam de barco.
O Lago General Carrera é o segundo maior lago da América do Sul e o maior do Chile. Sua cor, um azul turquesa impossível, vem dos minerais carregados pelas geleiras. Cruzá-lo de balsa é uma das experiências mais marcantes da Carretera Austral.

Como fazer trekking no Parque Nacional Patagônia
O Parque Nacional Patagônia não é um destino para ser visitado de passagem. As trilhas são extensas, o terreno é remoto e a logística de transporte na Carretera Austral exige planejamento detalhado.
As trilhas são de nível leve a moderado, acessíveis para qualquer pessoa com uma rotina ativa. Não há subidas técnicas nem exigência de preparo físico de atleta. O que importa é a disposição para caminhar em terreno natural por horas, com o peso de uma mochila de ataque.
O clima da região é instável. Mesmo no verão austral, entre dezembro e março, é comum alternância rápida entre sol, vento e chuva. A programação das trilhas deve ter flexibilidade para adaptações.
Para quem não quer se preocupar com a logística, fazer o trekking com um grupo guiado é a opção mais recomendada. Além de garantir segurança e transporte, um guia com conhecimento real do destino transforma a experiência: sabe onde parar, o que observar e o que a maioria dos viajantes independentes passa sem perceber.

A melhor época para visitar
A temporada ideal é o verão austral, de novembro a março. Dezembro e janeiro oferecem os dias mais longos e as melhores condições para trekking. Fevereiro e março têm menos movimento e clima ainda agradável.
Evite o inverno (junho a agosto), quando muitas trilhas ficam inacessíveis por neve e as temperaturas caem drasticamente.
Como chegar
O acesso principal é pelo aeroporto de Balmaceda (BBA), a aproximadamente 70 km de Coyhaique. De lá, segue-se pela Carretera Austral em direção sul, passando por Chile Chico e cruzando o Lago General Carrera de balsa até chegar à região de Cochrane e ao parque.
A Carretera Austral tem trechos de terra e cascalho. Veículo 4x4 é recomendado para quem vai de carro próprio.
A Latitude 51 leva grupos de no máximo 10 pessoas para expedições de 8 dias pelo Parque Nacional Patagônia, com saídas em dezembro e janeiro. O guia Amauri Coutinho percorreu cada trilha antes de incluí-la no roteiro. Veja o roteiro completo em latitude51.com.br/trekking-parque-nacional-patagonia


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